Discurso não corre na veia
Já vinha com um aperto no peito, desses que não cobram explicação, mas insistem em acordar a gente antes do sol. A notícia corria quase envergonhada, como se tivesse medo de incomodar: os estoques de sangue em Alagoas haviam atingido nível crítico. Hemocentros no osso. Cirurgias de alta complexidade ameaçadas. Até que o eufemismo caiu por terra: um transplante de fígado foi suspenso. Não por falta de coragem, nem de médicos, nem de sala cirúrgica. Por falta de sangue.
Soube que o alerta partiu da Santa Casa de Misericórdia de Maceió, pela voz cansada de quem vive do lado de dentro do jaleco. Em vídeo que circulou nas redes, o alerta era direto: não há hemoderivados suficientes. Sem sangue, não há milagre técnico que resista. Transplante não se faz com protocolo bem escrito. Faz-se, antes de tudo, com sangue disponível.
A inquietação aumentou quando o caso ganhou nome e sobrenome. Ulisses de França Braga Jr. Sangue O negativo. Dos raros. Dos que só recebem do mesmo tipo. Dos que, ironicamente, doam para todos. Sete por cento da população carrega esse passaporte biológico que salva vidas em emergências, mas cobra um preço alto quando os estoques evaporam. Ulisses Jr. perdeu a janela do transplante. A vida — sempre apressada — pediu que ele esperasse.
Conheci Ulisses Jr. ainda criança, levado pela mão do pai, meu amigo Ulisses “Clarinete” Braga, falecido em 2017, aos 73 anos. Um dos homens mais brilhantes com quem trabalhei na virada dos anos 1980. Clarinete era desses que enxergam o futuro antes de ele se explicar. Quando computador pessoal ainda parecia ficção estrangeira, ele já dizia, com a lucidez de quem aponta o óbvio: “isso vai mudar tudo... e rápido”.
Diabético severo, brigava diariamente com o próprio corpanzil de quase dois metros, porque adorava comer e beber — não necessariamente nessa ordem. Em compensação, tinha uma inteligência que não pedia licença para expor a mediocridade alheia. Espirituoso, falava de quase tudo com uma fluência que constrangia os simplificadores profissionais. Foi bancário, mas era muito mais: radioamador, radialista, chef de cozinha, piloto, programador, crítico literário e musical, escritor preguiçoso. Dominava inglês e espanhol não como medalha, mas como ferramenta. E se divertia observando a paisagem humana ao redor.
Certa vez, um chefão resolveu provocá-lo, sob o pretexto de elogiar seu raro poder de cativar plateias. Disse que Clarinete, na prova para tirar o brevê de piloto de teco-teco, teria feito um voo rasante sobre a cidade, passando tão rente à imagem da santa padroeira que tirou um fino na auréola — e que a santa, comovida, chegou a derramar uma lágrima. Clarinete não acusou o golpe. Esperou a gargalhada geral baixar e devolveu com um cruzado à la Ariano Suassuna: “vocês não leem… vocês não viajam…”. Ele sabia, como poucos, viajar.
Ah, como eu queria hoje poder ligar para ele. Contar que o filho está à espera de uma negociação noutro plano. Que um transplante foi suspenso porque faltou aquilo que não se fabrica em laboratório. Nenhum cientista encontrou substituto. Há paliativos, atalhos provisórios, mas nada que substitua o gesto humano de estender o braço — por amor ou por dor.
Os especialistas repetem: a doação regular é a única saída. Uma única bolsa pode salvar até quatro vidas. Coleta-se pouco — menos de dez por cento do sangue do corpo. O organismo repõe rápido. Não há risco de contágio. Existe até uma folga garantida por lei. Ainda assim, os estoques minguam, como açudes na estiagem.
Porém os critérios excluem muitos (eu, inclusive): idade, peso, saúde, alimentação, sono, tatuagem recente. Não há sistema que sobreviva apenas a apelos episódicos, a campanhas acionadas quando a sirene já está gritando.
Se bem me lembro de Clarinete, ele faria uma pergunta incômoda: será que ninguém percebeu que o sistema está organizado para falhar?
Logo em seguida, viria com uma solução simples, dessas que respeitam a alma do brasileiro e sua eterna prontidão para o feriado. Incentivo concreto. Reescrever a norma. Doou sangue? Três dias de folga a cada seis meses. Ou cinco por ano. Tudo comprovado. E, para evitar o discurso da “cortesia com o chapéu alheio”, compensação fiscal às empresas empregadoras.
Nada de heroísmo abstrato. Reconhecimento prático. Sangue não se pede apenas com cartaz emotivo. Estoque se constrói com política pública inteligente.
Enquanto não acontece, Ulisses Jr. e outros esperam. E o sistema segue contando com o velho vício nacional do improviso.
Enquanto não acontece, você, que se enquadra no perfil de doador, procure ainda hoje um dos hemocentros ou hospitais de sua cidade.
No fundo, basta lembrar que sangue não se cria. Circula. E quando falta, descobre-se tarde demais que discurso não corre na veia.
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