Edberto Ticianelli

O xeque-mate do peru

Por Edberto Ticianeli 02/05/2022 15h03
O xeque-mate do peru

Rezava a lenda e o Almanaque Biotonico Fontoura, que o peru já foi um pavão metido a besta, que se achava bonito, mas reclamava a Deus por não poder voar como o urubu e assim ter sua beleza admirada por todos.

Seu pedido aos céus foi mal compreendido e o Departamento de Adequações Divinas manteve-o sem voar, mas lhe deu algumas características do urubu, a feiura entre elas.

O azarado do peru, para completar seu infortúnio, ainda teve o seu nome associado aos indivíduos que palpitam nos jogos de tabuleiro.

Isso mesmo, a função deles e dar palpites. Normalmente não jogam nada, mas ficam extremamente satisfeitos em posarem de entendidos, orientando os jogadores.

Conheci alguns deles. Eram tratados como pessoas chatas, mas animavam qualquer jogo pela confusão que criavam.

Um deles, o Xavier, era figura carimbada na Ponta Grossa. Aparecia em todas as rodas de jogo, sempre transmitindo seu imenso saber.

Certa feita pregaram uma peça nele.

Frequentava a casa do “seu” Ernande, onde se “batia o bozó” num bom jogo noturno de esporte (ludo).

Xavier tinha uma rotina: participava dos lances iniciais até ser expulso para uma cadeira de balanço, onde cochilava após alguns minutos vendo novela na televisão.

Certa noite, quando o “peru” já dormia, “seu” Ernande escureceu a imagem da TV — deixando somente o som, desligou todas as luzes da casa e continuou a falar e fazer barulho como se estivesse a jogar. Um dos presentes chutou a cadeira onde estava o Xavier até acordá-lo. Em poucos segundos ele gritava:

— Socorro! Estou cego!

Foi embora com raiva quando acenderam as luzes.

De outra feita, Xavier apareceu na calçada lá de casa, na esquina da Rua Guaicurus com a Rua Santo Antônio, onde realizávamos, aos sábados à tarde, um torneio de xadrez entre jogadores de vários bairros, principalmente da Ponta Grossa e do Trapiche da Barra.

Fiquei de olho nele. Queria saber até onde ia a sua capacidade de peruar. Ele não tinha conhecimento algum sobre o jogo de xadrez.

Circulou por vários tabuleiros demonstrando o máximo interesse: olhar interrogativo, braço cruzado no peito e sobre ele o cotovelo do outro, que segurava o queixo.

Dez minutos, não mais que dez minutos foram gastos em análise e já tínhamos Xavier pronto para orientar os pobres mortais.

Como me conhecia, discretamente, aproximou-se de onde eu jogava, postou-se atrás do meu adversário, o hoje professor doutor Cícero Péricles de Carvalho, e começou a indicar com algumas caretas e movimentos de queixo uma direção para minha jogada, como se isso fosse possível.

Joguei o que tinha que jogar e anunciei o xeque, como manda a regra. Ele ouviu aquilo e a partir de então completava as mungangas falando baixinho:

— Joga um xeque…

Com o fim da partida, chamei o Xavier até o tabuleiro e perguntei:

— Não entendi a jogada que você indicou. Qual era mesmo o movimento que deveria ter sido feito?

Ele olhou para as peças (não sabia o nome de nenhuma), pensou um pouco e deslocou um peão diagonalmente por cinco casas num movimento irregular e com firmeza falou:

— Xeque!

— Que xeque, Xavier? Aí não tem xeque nenhum e nem o peão se move assim.

Fez expressão de decepcionado, chegou mais perto para não ser ouvido pelos outros e filosofou:

— Pode não ser um xeque, mas se fosse seria um xeqaço, né não?

Grande Xavier! O primeiro e único peru profissional da Ponta Grossa.