Crônicas

Quase deu certo

Por Blog do Hayton 13/08/2022 21h09
Quase deu certo

Quase tudo já foi dito sobre os 80 anos de Caetano Veloso, celebrados em grande estilo na noite do último domingo, ao lado dos filhos Moreno, Tom e Zeca e da irmã Maria Bethânia, no palco da Cidade das Artes, no Rio de Janeiro.
Ao assistir à live, lembrei-me de Claudionor Viana Teles Veloso, mais conhecida como Dona Canô, mãe e avó deles, que desde o Natal de 2012 virou estrelinha cintilante no céu da pequena Santo Amaro da Purificação, berço do samba de roda no Recôncavo Baiano.

Matriarca da família, sua influência não se limitava ao clã, mas a tudo que se mexia na aldeia, sob o ponto de vista cultural, político e religioso. Não à toa, a novena de Nossa Senhora da Purificação virou a “novena de Dona Canô” e os atabaques dobravam à sua passagem. Não por acaso, ela mantinha relações amistosas com figuras antagônicas como Luís Inácio Lula da Silva e Antônio Carlos Magalhães, sem perder a ternura jamais.
Quando cheguei à Bahia para coordenar a rede de agências do Banco do Brasil, em 1999, me contaram que em algumas regiões havia pelo menos 60% de analfabetos – zona rural de Jacobina, por exemplo. Enquanto isso, dormia empoeirado na prateleira da empresa um remédio poderoso para abrandar a dor desse flagelo social: o BB Educar, programa de alfabetização de adultos, criado em 1992 pela área de RH do bancão com base no método mundialmente reconhecido do filósofo e pedagogo brasileiro Paulo Freire.
Sem as plataformas de comunicação de hoje em dia, era importante escolher uma fada-madrinha de peso (e leve, ao mesmo tempo!), para despertar o interesse geral pelo BB Educar na Bahia e esclarecer a opinião pública sobre o seu propósito, bem mais amplo do que simples retorno de imagem para o patrocinador.
Quem poderia ser essa fada-madrinha? Daniela Mercury? Ivete Sangalo? Zélia Gattai? Optamos por convidar Dona Canô, que, no entusiasmo de seus 92 anos, topou na hora: “É isso mesmo que estou ouvindo? Vocês querem que eu seja a madrinha de um programa lindo como esse?!”

No dia do lançamento, ela atiçava seus “afilhados”, a maioria na casa dos 40 anos, constrangidos por não saberem ler nem escrever: “Minha gente, vocês têm mais é que agradecer a Deus por essa oportunidade, porque quem aprende, mesmo depois de velho, deixa de tentar ‘adivinhar’ o que está escrito nos livros e nos jornais...”
Antes de pegar os 80 km da rodovia BR-420 de volta para Salvador, eu e Magdala, minha mulher, recebemos um gentil e inesperado convite de Dona Canô:

– Quero que voltem aqui na minha casa, em agosto, quando iremos comemorar o aniversário de Caetano. Posso contar com vocês?

– Claro, Dona Canô!

Seria a oportunidade de ver de perto o sorriso iluminado de sua caçula, uma abelha-rainha a cantarolar descalça, na sala ou no quintal, versos do irmão aniversariante como:

“...Eu sou o cheiro dos livros desesperados,

sou Gitá gogoia, seu olho me olha, mas não me pode alcançar.

Não tenho escolha, careta, vou descartar:

Quem não rezou a novena de Dona Canô,

Quem não seguiu o mendigo Joãozinho Beija-Flor,

Quem não amou a elegância sutil de Bobô,

Quem não é Recôncavo nem pode ser reconvexo...”

Era a chance de conhecer de perto o cara que, quando menino, de tanto ver o rio de sua aldeia desaguar na Baía de Todos os Santos, construiu imagens de infinita beleza:

“...Reza, reza o rio, córrego pro rio, o rio pro mar.Reza a correnteza, roça, beira, doura a areia.Marcha o homem sobre o chão, leva no coração uma ferida acesa,Dono do ‘sim’ e do ‘não’ diante da visão...”

“Meu coração não se cansa de ter esperança de um dia ser tudo o que quer...”

“Existirmos: a que será que se destina?”

“Você diz a verdade e a verdade é o seu dom de iludir”.

“O tempo não para e, no entanto, ele nunca envelhece...”

Imaginem só o tamanho da frustração lá em casa – quase sai divórcio... Litigioso! – quando, na véspera do retorno a Santo Amaro, tive que me desculpar junto a Dona Canô, pois teria que me deslocar a outra cidade, por força de obrigação profissional.

Muitos anos depois, em 2012, pouco antes de Dona Canô ser intimada por todos os santos a brilhar no céu da Bahia, encontrei Bethânia, nos bastidores do Teatro Nacional, em Brasília, após a realização de um espetáculo em que interpretou a obra de Chico. Até cogitei contar o que conto agora e quase deu certo, mas desisti. Afinal, o tempo não para… Nem volta.A verdade (no caso, o dom de me iludir!) é que ainda não chegou o dia de conhecer Caetano. Ainda bem que, feito o tempo (“compositor de destinos, tambor de todos os ritmos”), o filho de Dona Canô nunca envelhece.

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