Segue o jogo...

Nesta quarta-feira, 26, celebro 67 fevereiros, início de uma nova página na minha existência. Uns dirão: “um menino, ainda!”, enquanto outros, com os pés fincados na realidade, comentam: “descendo a ladeira, hein?!” Millôr Fernandes diria: “Qualquer idiota consegue ser jovem. É preciso talento pra envelhecer.”
Alguns me perguntam: por que escrevo? Escrevo porque preciso conversar com amigos e amigas, mesmo que virtualmente, e deixar rastros de momentos em que pensei, senti e vivi com intensidade. E você? Já refletiu sobre o que tem deixado de si?
Em 1970, em Maceió, ao lado do meu irmão Agostinho – ou Nena, pois minha língua não acertava “nenê” –, antes de brincar com as palavras, mergulhávamos numa outra arte: fabricar botões para o futebol de mesa. Nossa alquimia usava ingredientes simples e, ainda assim, perigosamente poéticos. Numa panelinha de leite em pó, untada com sabão, misturávamos pedaços de plástico rígido – tampas de remédio, retalhos de cano, lanternas quebradas – e, sob o fogo tênue de uma lamparina, o ordinário se transformava em pura magia. Depois, políamos com folhas de cajueiro bravo e, com flanela e fragmentos moídos de azulejos, fazíamos brilhar o que fora descartado.
Antes dessa alquimia, em União dos Palmares, experimentamos uma breve temporada dos botões de quengo de coco, logo após a fase passarinheira em que engaiolávamos canários, curiós e galos-de-campina, como se a beleza e o canto pudessem ser aprisionados. Depois surgiram os botões de capas de relógio e de acrílico – o mítico “vidro inquebrável”, que parecia imune ao tempo.
Aprendemos juntos, então, que viver é um eterno aprender e desaprender. Hoje, duvido que ousássemos arrancar um pedaço daquela janela de acrílico rachada do ônibus da linha Ponta da Terra – Ponta Grossa, desembarcando às pressas, sem pagar passagem, mesmo com o passe estudantil amassado no bolso.
Nem com uma serra de canos nos atreveríamos a recortar quadradinhos, arredondar as quinas do batente do quintal e, entre dois discos meticulosamente alinhados, fixar a foto de um craque recortada da “Placar” – um batismo laico de ídolos. Quem não se lembra do número 10 dos grandes clubes – Pelé, Tostão, Rivellino, Ademir da Guia? Em seguida, Zico e Roberto Dinamite inaugurariam uma nova era, enquanto nós, artesãos do futebol de mesa, lutávamos para tornar o “10” o adversário mais temido. Com palheta ou pente em punho, olhar fixo e respiração contida, alertávamos: “Coloque-se!” E, em resposta, o adversário implorava aos deuses do futebol que seu goleiro – uma caixa de fósforos recheada com grãos de chumbo – evitasse o gol.
“Dez segundos pra acabar... Último chute!”, avisava o árbitro imaginário. E o mundo aguardava o apito final.
Às quartas-feiras, nossa rotina nos levava ao mercado público da Levada, onde comprávamos carnes, frutas e raízes, movidos pelo desejo quase sagrado de garantir a nova edição da “Placar”. Da lista de compras, separávamos o trocado que sustentava nossa dose semanal de futebol impresso. Nossa mãe, imersa no desafio de cuidar de nove filhos, não notava o pequeno confisco; enquanto nosso pai, com olhar cúmplice, compartilhava o entusiasmo silencioso pela leitura.
O cheiro da revista ainda pulsa em nossas narinas, evocando não só uma revista, mas o elo que unia os rachas nos campinhos, as noites de domingo diante da TV esperando os gols do final de semana e as épicas disputas de botão.
Numa dessas idas ao mercado, um camelô, com sua banca improvisada, revelou-nos um segredo quase mágico: bastava espalhar, com um chumaço de algodão, uma mistura de álcool e gasolina sobre uma folha de papel para que as imagens da “Placar” se transformassem num passe de encantamento. Assim nasceram nossos jornais – eu editava o “Destaque”, que apenas Nena lia; ele, o “Jortebol”, exclusivo para mim.
Nena tornou-se um fanático são-paulino, embalado pelo bicampeonato paulista de 1970-71, enquanto eu, contagiado pelo entusiasmo do nosso pai e pelo título carioca do Vasco, forjava minha seleção com Buglê, Valfrido e Silva. As partidas eram intensas e, logo, a guerra de narrativas se instaurava: cada um redigia sua versão do jogo, alinhando à régua as notícias escritas com esferográfica, enquanto as imagens da “Placar” serviam de pano de fundo. O resultado era o mesmo, mas os fatos se desdobravam em três versões: a minha, a dele e a verdadeira.
O tempo passou. Mudamos e o mundo se transformou. Não nos tornamos escritores, jornalistas ou “game designers” (ainda nem existiam Microsoft, PlayStation ou Xbox). Viramos bancários, como nosso pai. Aprendemos que cada escolha traz ganhos e perdas – e que, enquanto o apito final não soa, o jogo continua.
Hoje, aos 67 anos, sigo em campo. Já marquei gols, perdi pênaltis, ganhei abraços e levei pontapés, mas a bola ainda rola nos gramados da vida. E, quem sabe, o próximo chute, a dez segundos do fim, seja o mais memorável de todos. Coloque-se! – porque o jogo ainda não acabou.
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