Fugindo pro inferno

Um cinegrafista que capturava imagens do fundo do mar nunca imaginou que seu grande momento de fama viria com um peixe que, ironicamente, passou a vida fugindo dos holofotes. Pois foi exatamente isso que aconteceu recentemente, quando pesquisadores da ONG Condrik Tenerife avistaram um espécime do temido Melanocetus johnsonii — o peixe-diabo-negro — nadando em águas rasas, nas Ilhas Canárias, nas proximidades da costa espanhola.
O evento, sem precedentes, foi recebido com a seriedade típica dos fóruns de internet: teorias conspiratórias brotaram como larvas de mosquito-da-dengue em pneus descartados nos lixões.
— Se esse bicho subiu, é porque algo terrível está para acontecer — decretou um profeta do apocalipse digital.— Concordo! Se ele apareceu, é porque o inferno lá embaixo ficou pior — sentenciou outro, com uma lógica digna de reunião corporativa na véspera do Carnaval.
Os vídeos do bicho feio viralizaram, e foi aí que a coisa descambou de vez. Bastou alguém lembrar que um abalo sísmico chacoalhou o Caribe dias depois, e pronto: estava estabelecida a conexão telepática entre peixes das profundezas e placas tectônicas. Para os especialistas das redes sociais, o fim do mundo começara com um peixe-diabólico que se cansou do anonimato.
Um amigo meu, cronista bissexto e cearense, me enviou o link da notícia com um comentário provocativo:
— Tá aí, cara, até o diabo, quando menos se espera, busca a luz...
Pensei em responder com um emoji apreensivo, mas antes que eu apertasse o botão, outra mensagem pipocou na tela: a capa da Forbes. A manchete destacava um primata descascando sua banana ao lado de uma reflexão indigesta:
"Se um macaco acumulasse mais bananas do que pudesse comer, enquanto os outros morressem de fome, os cientistas tentariam entender o que há de errado com ele. Mas quando um humano faz isso, o colocamos na capa da Forbes."
A conexão foi instantânea. Talvez o peixe-diabo-negro tenha subido porque percebeu que o verdadeiro inferno não era lá embaixo. De repente, olhou para o andar de cima e viu um czar branco deportando imigrantes como se fossem bagagens extraviadas, magnatas monopolizando logaritmos e CEOs erguendo impérios sobre vales de lágrimas e miséria. Sem alternativas, nadou em direção ao sol, na esperança de encontrar dias ruins, mas pelo menos iluminados.
Os cientistas logo trataram de oferecer uma explicação mais racional:
— Provavelmente estava doente — apontou um biólogo da UFMG.— Não há evidências de que seja presságio de tsunami — garantiu outro.
Também destacaram um detalhe biológico: era uma fêmea — sim, uma fêmea! — e sua bioluminescência a diferenciava dos machos da espécie, que, numa reviravolta evolutiva, vivem como meros apêndices grudados ao corpo delas.
No fim, o peixe diabólico não resistiu. A pressão atmosférica lhe foi fatal, e seu corpo foi recolhido pelo Museu de Natureza e Arqueologia de Tenerife. Enquanto isso, no abismo, seus familiares talvez se perguntem se ela fugiu para curtir o Caribe com uma garoupa ou um robalo. Tudo é possível nos dias de hoje.
No fundo — no fundo mesmo — talvez tenha sido melhor assim. Se tivesse sobrevivido, logo seria convidado para dar palestras sobre resiliência em eventos corporativos, patrocinados por fintechs que prometem democratizar investimentos enquanto cobram taxas que fariam um tubarão corar.
Aliás, não duvido que algum guru da autoajuda já tenha transformado essa breve incursão à superfície em um novo best-seller: "A luz que há no abismo: lições de superação de um peixe que desafiou seu destino". Com direito a TED Talk e legendas motivacionais em posts do LinkedIn.
Por via das dúvidas, se algum dia eu estiver aqui, relaxando nas águas mornas da Enseada da Ponta Verde, em Maceió, e encontrar um bicho feio desses nadando na vertical, não vou me preocupar com sinais apocalípticos. Provavelmente, só se cansou da escuridão e resolveu tentar a vida de coach no Nordeste.
Neste mundo onde qualquer um pode virar influencer, o inferno já não precisa de chamas. Ele se ilumina com flashes, números inflados e promessas vazias. Ou, quem sabe, o peixe só tenha entendido antes de nós que o verdadeiro abismo não está nas profundezas do oceano, mas na superfície — onde o monstro da ambição engole tudo o que vê pela frente. Mais do que qualquer criatura das trevas.
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