Trocando em miúdos (até o rim)

Poucas cenas me entristecem tanto quanto o crepúsculo de uma relação amorosa. Pior quando envolve amigos queridos — aqueles que, mesmo a gente sabendo dos perrengues conjugais, torce para que entrem de novo em sintonia e sigam de mãos dadas até o fim da estrada, mesmo de bengalas.
Volta e meia me lembro de uma interpretação antológica de Elis Regina para Atrás da Porta (Quando olhaste bem nos olhos meus / E o teu olhar era de adeus...), de Chico Buarque e Francis Hime. Foi em outubro de 1980, no programa Grandes Nomes, da Rede Globo, sob as ruínas de seu casamento, Elis foi tão visceral que, no fim, desabou em lágrimas.
Só faltou a voz de fundo de Vinicius de Moraes com o Soneto da Fidelidade, contando da mortalidade e da natureza efêmera da vida, ensinando que o amor pode não ser imortal, “posto que é chama”, mas que seja “infinito enquanto dure”.
Outra memória vem de 1979. Parece de um tempo ainda mais remoto — um museu de costumes extintos, com cheiro de cigarro, poltrona de veludo, radiola e vinil. Aconteceu há 45 anos, mas poderia ter sido há uma década. Só que o espírito da coisa é vintage: analógico até na dor.
O divórcio, na época objeto de grande polêmica religiosa, havia sido instituído recentemente. No seriado Malu Mulher. Pedro Henrique (Dênis Carvalho), diante da prateleira de LPs, escuta o veredito de Malu (Regina Duarte): “Os discos de Bethânia são todos meus.” Era o fim do amor dividido em faixas de vinil.
A cena tinha aquele ar solene de inventário sentimental. E não existia metáfora melhor para dividir os escombros de um amor do que repartir a trilha sonora que o embalou. Hoje, a logística do coração perdeu parte do charme: a discografia inteira de uma relação cabe num pendrive ou numa playlist que se pode deletar com um ou dois cliques. Sem agulhas, sem faixas riscadas, sem drama.
O mundo gira e, junto com os discos, até a saideira — aquele improvável arremate de beijos e carícias — também saiu de catálogo. Dá pra imaginar diálogos que nunca mais serão ouvidos:— Fico com os de Elis e Gal. Você sempre foi mais Bethânia...Ou o atestado definitivo de que já não existe mais nada:— Por que tá levando o Acabou Chorare?— Foi presente de Dia dos Namorados, lembra?!— Pois é, mas se eu soubesse que a gente ia se separar, te dava um Fábio Jr.
Se antes os discos serviam como álibi para o desfecho de um caso, hoje a falta de objetos de valor estimativo para dividir parece ter transformado o fim do amor num jogo sem regras. Não basta mais decidir quem fica com os LPs de Chico Buarque — tem gente querendo de volta até o que não se pode tocar.
Se antes só se brigava por discos, cartas e fotos, agora o amor parece se desfazer em downloads e devoluções mais inusitadas. E assim chegamos ao caso de Richard Batista, médico de Long Island, nos Estados Unidos, que levou o “Trocando em miúdos” — o hino buarqueano da separação — ao pé da letra.
Segundo o New York Post, quando a esposa, Dominic Barbara, precisou de um rim, ele não titubeou: doou. Só não contava que o casamento não sobreviveria ao transplante. Recuperada, Dominic resolveu engatar uma amizade — digamos, reconfortante demais — com o fisioterapeuta. Richard, traído, pediu o divórcio e, de quebra, exigiu o rim de volta ou uma indenização de US$ 1,5 milhão.
A Justiça negou o pedido, alegando que órgãos não entram na partilha de bens. O rim agora era dela, ponto final. E, convenhamos, arrancar o órgão para devolução soaria um tanto medieval.
Ainda bem que Chico e Francis nunca imaginaram algo parecido nos anos 1970. Do contrário, no sarapatel de sentimentos envolvendo coração, fígado e rins, a letra de Trocando em Miúdos poderia terminar com um pragmático:“Fico com o disco do Pixinguinha, simMas se eu soubesse que tudo terminaria assimDoaria só metade do rim...”
Se a moda pega, logo vai ter gente exigindo de volta não só os discos, mas abraços, beijos, carícias e até os “eu te amo” cheios de desejo sussurrados ao pé do ouvido. E, claro, tudo corrigido pela inflação.
E não duvidem: daqui a pouco, os casais talvez nem precisem mais de advogados. Bastará um aplicativo para calcular a depreciação emocional do relacionamento, reaver arquivos sentimentais deletados e, quem sabe, propor a devolução parcelada de orgasmos não compartilhados. No fim, o amor, que um dia foi eterno enquanto durou, será só mais um contrato com cláusula de rescisão automática, garantia estendida contra danos afetivos e indenização proporcional ao tempo desperdiçado.
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