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e outros casos” (2021) e "Frestas" v(2022).

Drink do Corno Feliz

Por Blog do Hayton 02/04/2025 10h10
Drink do Corno Feliz

Foi maravilhoso revisitar à Bahia semana passada! Na minha faixa etária, pouco acima da “meia-idade”, já vi muita coisa, mas ainda me surpreendo. Como, por exemplo, um homem traído que resolveu transformar o próprio infortúnio em um bar de sucesso: o Drink do Corno Feliz.

Agora me digam: o que se faz ao descobrir uma traição? Uns choram, outros quebram copos e pratos, alguns tentam afogar as mágoas em abraços alternativos.

João Augusto, baiano de Morro de São Paulo, escolheu um caminho insólito: abriu um bar. E não qualquer boteco, mas um ponto turístico batizado com precisão cirúrgica.

O bar, que já soma mais de uma década de sucesso, nasceu da dor, cresceu na resignação e amadurece sob o sol de Tinharé.

— Muita gente destrói a vida por causa de uma traição. Precisamos brincar mais com isso. A vida continua... — ensina João.

Talvez, ainda menino, ele tenha escutado na vitrola do pai Juca Chaves — o “Menestrel Maldito” apelidado por Vinicius de Moraes — e aprendido, desde cedo, a rir das próprias desgraças, como nestes versos:

“Eu tenho chifre mas não tenho queixa


Se bem que a testa fique bem maior


Até que é bom quando a mulher nos deixa


A gente sempre arruma outra melhor.”

E segue o refrão:

“Essa é a vida que eu sempre quis


Eu sou cornudo, mas eu sou feliz...”

A traição veio em 2016, encerrando um relacionamento de 16 anos. João vagou pelas ruas de Morro de São Paulo com o mundo escorregando sob os pés — orgulho ferido, raiva contida, e a sensação de que só ele não sabia.

Por dias, perambulou feito zumbi, o amargo colado na garganta. Foi nesse estado que, certa tarde, escutou um grupo de turistas reclamando da falta de um bom drink diante do pôr do sol. Um deles brincou:

— Rapaz, se eu levo um chifre num lugar desses, pelo menos queria uma caipirinha pra descer redondo.

A frase pairou como revelação de boteco: nada divino, mas uma ideia luminosa — dessas que chegam com gelo, limão e timing perfeito.

Dali pro negócio foi um pulo. Comprou alguns ingredientes, uma caixa térmica e improvisou um letreiro de madeira: Drink do Corno Feliz.

Afinal, se a dor é inevitável, que ao menos gere fluxo de caixa positivo.

A prefeitura torceu o nariz, burocratas fingiram não ver — talvez já calejados de tantos chifres próprios —, mas João não esmoreceu. Limpou o mirante, ergueu sua modesta estrutura e, em pouco tempo, o bar se tornou uma referência local.

Turistas e moradores começaram a procurá-lo não apenas pela vista, mas para brindar ao inevitável: o chifre pode alcançar qualquer um.

Supõe-se que os primeiros clientes chegaram movidos pelo humor. Mas a curiosidade venceu o constrangimento, e João logo percebeu que o bar era mais que ponto turístico: virou santuário dos cornos anônimos.

Entre uma caipirinha e outra, confissões surgiam como desabafo de penitentes: o marido que caiu nos braços da madrinha de casamento, a missionária que era amante do "irmão" de igreja, o sujeito que percebeu que o filho do vizinho se parecia mais com ele do que o próprio filho biológico.

O apelido "Corno Feliz" colou de vez, e João, longe de se incomodar, o adotou com gosto.

Hoje, desfila pelo bar com um chapéu de palha de onde brotam chifres vistosos, feito um viking tropical — ou um Dom Quixote que fez as pazes com seus moinhos —, e uma frase de efeito para cada situação.

Se o cliente reclama do preço da caipirinha, ele rebate:

— Chifre é de graça, mas caipirinha tem custo.

Se alguém hesita em pedir um drink, encabulado com o nome do bar, ele pondera:

— Se chegou até aqui, já pode brindar.

E quando perguntam se já superou a traição, apenas sorri e aponta para a placa.

Nelson Rodrigues, outro que entendia como poucos das agruras do coração, dizia que "amar é ser fiel a quem te trai". Provocador, né? Sugere algo quase insuportável: um amor que resiste ao que deveria matá-lo.

Mas talvez ele só quisesse dizer que fidelidade diz mais sobre quem leva o chifre do que sobre quem o aplica. O traidor pode ser canalha, distraído ou apenas um desavisado tropeçando na própria libido.

Já o traído... ah, esse ganha um certo status: vira patrimônio emocional tombado — digno de abraço carinhoso, conselho gratuito e, às vezes, até de uma rodada de caipirinha.

Vai ver João Augusto entendeu, lá do alto do mirante, que se a vida dá chifres, que venham com limão, açúcar, gelo e uma boa cachaça.

E que rendam mais que um relacionamento amoroso — de preferência, livres de mágoas, de impostos e com vista pro mar.