Edberto Ticianelli

Chegamos aos 60

Por Por Sérgio Braga Vilas Boas 03/06/2022 11h11
Chegamos aos 60

Antes de mais nada, no dia seguinte aos 60 anos completos, procuramos o escritório da SMTT para garantir o cartão de IDOSO, que permite estacionar em vagas reservadas. Um a zero pra nós!

Há algum tempo, chegar aos 60 era uma tragédia. Tinha-se a impressão que as pessoas nos olhavam ou como se fôssemos pesos extras a serem carregados, ou como bibelôs que mereciam uma coçadinha no queixo e um afago na cabeça. Coisa do passado, do qual só resta a possibilidade de estacionar em vagas reservadas (que estão quase sempre ocupadas por sei lá quem), e ter preferência em atendimento, o que geralmente nos ocasiona horas extras de espera.

Mas, o mundo gira, capota, dá duplo twist carpado. A última “reforma da previdência” nos elevou à categoria de garotos. Hoje, vemos os “velhinhos e velhinhas” de classe média pra cima, fazendo suas corridas matinais na praia, cheios de roupa da nike, adidas, asics, etc. Portando portentosos tênis ultraboost, Nimbus Gel 24, Mizuno Wave Sky, New Balance 1080 v11. As bermudas até o pescoço foram substituídas por vestes apertadinhas de cós baixo, daquelas que qualquer bobeira os pelos pubianos dão as caras. Se “seu” Renaur, meu pai, presenciasse isso, do alto do seu conservadorismo, teria um infarto (e foi disso que ele faleceu).

Esses velhinhos, nossa senhora, povoam as academias com seus colantes coloridos, e shorts e camisetas de grife a dar mostras de rara elasticidade e força. As velhinhas então, bonitas, bem cuidadas, com seus cabelos arrumadíssimos, unhas perfeitas, pele sedosa feito pêssego.

Bom, já dizia um amigo gaúcho, que depois dos 50, se o “peão” acordar sem dor, é porque está morto, acordou no além.

Nos bastidores, há toneladas de Dolamin Flex, Dipirona, Tilatil, Feldene, Ômega 3, Colágeno e outros do gênero. Obviamente que acompanhados de boa dosagem de Pantoprazol 40, Domperidona e Luftal, para segurar os peidos e arrotos. Fora isso tem também rios de tinta para os cabelos e caçambas de creme para o rosto, mãos, pescoço, e sei lá mais o quê. Nos pés, esporão, tendinite e fascite plantar, uma verdadeira fauna provocadora de dores, além das hérnias de disco, bicos de papagaio, lordoses e outras coisinhas.

Os consultórios de quiropraxia, ortopedia, traumatologia andam lotados. Sempre que entro num, fica a impressão que o médico está com estafa, e parece dizer: “lá vem mais um”, e puxa da gaveta aquela receita já pronta.

Remédios em sequência. A para doença B. C para os efeitos colaterais que A causa em função de B. D para doença E. F para os efeitos colaterais que D causa em função de E. G, H, I, J, L, M, N, etc. Um verdadeiro teorema que nem os luminares da matemática conseguiriam montar!

Há também, vez por outra, o velho amigo Rivotril. Se Vinícius de Moraes vivo fosse, continuaria aquela famosa frase de sua autoria: “o uísque é um cachorro engarrafado…e o rivotril é um cachorro em gotas”!